Papagaio come milho, periquito leva a fama

(To read this post in English: Parrot eats the corn, parakeet gets the blame)

De acordo com o último relatório anual do suicídio do Samaritans, uma instituição de caridade do Reino Unido que tem por objetivo dar suporte a indivíduos com problemas emocionais, todos os anos em torno de 200 pessoas fazem uso das ferrovias holandesas para se suicidar, deixando o país na 4° posição no ranking Europeu de suicídio em ferrovias. A taxa de suicídio total na Holanda nem é assim tão alta, cerca de 0,0098% ao ano, mas destes atualmente 12% estão relacionados a trens.

Manhã ensolarada de 03 de maio de 2013, eu sozinha na estação de trem da pequena Bergen op Zoom e nada do meu trem aparecer. No alto-falante uma voz anunciava uma explicação qualquer – em Holandês! O que será que estão dizendo? Será que o trem vai vir? Será que não? Será que foi cancelado? Quebrou? Está sendo consertado ou substituído? Quando será que ele vai passar? O que eu faço agora??????????

Mas não tive tempo de entrar em desespero porque, pra minha felicidade, pouco depois vi alguns rostos familiares aparecerem na plataforma: os Heepsters que eu havia conhecido no dia anterior estavam voltando para casa. Hahaha sensacional!! Heepvention surpresa na ferroviária!!!1 IMG_7446

Corroborando as estatísticas, meus amigos explicaram que aconteceu de um desinfeliz decidir fazer uso do meu trem para dar fim à própria vida, que o trem rápido que eu deveria pegar direto para Amsterdã não tinha previsão de aparecer tão cedo (infortúnios assim podem levar várias horas pra serem desembaraçados), e que o mais aconselhável nessa situação seria que eu embarcasse em um outro trem, do tipo “pinga-pinga” – bem mais demorado, porém mais confiável.

Quando por fim cheguei na capital da Holanda com duas horas de atraso e consegui uma conexão com a internet, na minha caixa de entrada havia uma mensagem desesperada da minha mãe: O que aconteceu??? Onde você está? Tem uma tal de Krokus ligando aqui em casa querendo saber de você… Está tudo bem?

Lição aprendida: Não dá para planejar tudo. A qualquer momento coisas além do nosso controle podem acontecer, sem aviso prévio. Mas sempre vai ter alguém por perto disposto a ajudar um viajante. Mãe, relaxa…

Antes de continuar com a narrativa das aventuras e desventuras, vou fazer um parênteses com algumas informações interessantes sobre a Holanda:

1- Tolerância social. O país é famoso por sua política liberal em relação à homossexualidade e à prostituição (o casamento gay e as zonas de meretrício são legalizados), a eutanásia e o aborto são permitidos (o que não significa que você pode passar a faca na sua avó doente sem uma autorização judicial), o consumo de drogas leves como a maconha é tolerado, de forma controlada. E isso tudo não quer dizer que o país seja uma zona. Ao contrário, é um dos mais civilizados do mundo, e geralmente quem faz baderna ali são turistas, não holandeses. Amsterdã é o principal destino turístico de jovens europeus na hora de comemorar o início da Primavera, despedida de solteiro, formatura, férias, e etc. Viva a sua vida do jeito que você bem entender, desde que não atrapalhe a dos outros.

2- Demografia. Com quase 17 milhões de habitantes vivendo em 41.543 km² (405 habitantes por km²), a Holanda é o 10° pais mais populoso da Europa e o 24° em densidade populacional do mundo. E quase a metade dessa gente toda vive concentrada em torno de apenas 3 cidades: Amsterdã, Haia e Roterdã.

3- Geografia. A Holanda é extremamente plana (praticamente não possui montanhas) e 40% do país fica abaixo do nível do mar. Amsterdã tem 1.281 pontes e 2.500 casas flutuantes, o que faz muito sentido já que 24% da área da cidade é constituída por água.3 IMG_7480

4- Transporte. Assim como 2+2 é igual a 4, uma superpopulação de 17 milhões de habitantes + terreno plano = bicicletas. A Holanda têm mais de 15.000 ciclovias, e há tantas bicicletas quanto habitantes. Aliás, em Amsterdã existem mais bicicletas (880 mil) do que moradores (810 mil). Se você está planejando visitar a cidade e não é do tipo que se assusta facilmente com enxames de magrelas zunindo loucamente em todas as direções, alugar uma bicicleta por dia pode ser uma boa mas, caso você não seja adepto do ciclismo, não se preocupe porque o transporte público é muito bom e inclui ônibus, metrô, trams (bondes) e táxis. Há opções para todos os gostos, e quase a totalidade dos motoristas fala inglês.

5- Já teve a impressão de que os holandeses são muito altos? Pois é, eles são mesmo. Eles são a população mais alta do mundo, com uma média de 1,81m de altura para homens e 1,67m para as mulheres.

6- Flores. A Tulipa é o principal símbolo do país, e jardinagem para um Holandês é assunto muito sério. Conheci um casal em Roma que me explicou em detalhes o processo de cultivo de uma tulipa, com suas peculiaridades: do tempo que os bulbos devem ser congelados até o nascimento quase mágico da flor, que cresce inteirinha dentro do bulbo, como um bebê no útero da mãe. O festival das flores em Amsterdã ocorre no jardim botânico Keukenhof, e vai do início da Primavera até o fim de maio, com a exposição de 4,5 milhões de tulipas de cerca de 100 variedades diferentes. Ainda sobre tulipas, eu recomendo a leitura do brilhante artigo do jornalista Alexandre Versignassi sobre a bolha econômica das tulipas holandesas no século 17. O causo é tão surreal que parece inventado: Como o mercado de flores do século 17 explica todas as crises da Terra…

É isso aí, agora que você já sabe um pouquinho mais sobre a Holanda, vamos lá. Eu parei na Krokus.

Uma vez do lado de fora da Amsterdam Centraal Train Station, me senti perdida igual cebola em salada de frutas: uma praça imensa, turistas e bicicletas pra todos os lados, trocentas paradas de ônibus e de bondes ao meu redor. Eu tinha o endereço e o número da condução que deveria tomar, mas naquele momento sozinha e cansada, com a minha mala gigante companheira de todas as horas, eu simplesmente não conseguia decidir pra que lado ficava a parada do meu bonde. Inesperadamente, uma mulher se aproxima de mim e pergunta: Você precisa de ajuda?

Pois eu não disse que sempre existe alguém disposto a ajudar um viajante? A mulher me indicou o caminho, a parada do tram, e ainda escreveu em um papelzinho o nome do lugar em que eu deveria descer. Mais um ponto para a humanidade.

2 IMG_7459E a Krokus?
A Krokus foi a pessoa de quem aluguei um quarto em Amsterdã, pela internet. A casa dela ficava em um bairro residencial um pouco afastado da área turística da cidade, muito tranqüilo e florido. Logo chegando tratei de tirar minhas botas, pois no site ela tinha deixado bem clara a política de “não são permitidos sapatos em casa”. O que não estava nada claro eram os dois lances de uma íngreme escadaria de madeira que eu teria que subir carregando uma mala de 30kg para chegar ao meu quarto!! É, até que 10 anos de kung fu serviram pra alguma coisa.

Depois de um breve descanso pra recuperar o fôlego e um pouco de conversa fiada com a minha adorável anfitriã, peguei um ônibus e fui me encontrar com um amigo do Brasil, ex-colega de faculdade, que estava no país a trabalho. Rodamos o centro velho da cidade inteira a pé tentando encontrar um restaurante tradicional chinês no qual ele já tinha estado antes, jantamos, depois paramos pra tomar uns chopes e botar o papo em dia em um pub enorme, muito animado, chamado Grasshopper. Hora de visitar a famosa zona de meretrício de Amsterdã, que eu estava ansiosíssima para conhecer… 😀

Não sei se é por conta de eu já estar acostumada a freqüentar inferninhos, mas o Red Lights District me pareceu bem mais discreto do que eu imaginava. As “lojas” ficam dispostas em uma rua ao longo de um canal e suas transversais, vielas escuras e sombrias com calçamento de pedra e ares medievais, repletas de jovens bêbados e traficantes de drogas. De longe somente o borrão das luzes vermelhas – ou azuis – instaladas sobre as vitrines é visível. Informação crucial para os moçoilos que pretendem um dia se esbaldar no comércio lascivo holandês: luz azul significa transexual. Não é permitido tirar fotos das profissionais, mas eu posso assegurar que a maioria delas é muito bonita, high quality. Lógico que tem uns tipos “exóticos” também, mas o que seria do amarelo se todos gostassem do azul?

“Faz o que tu queres pois é tudo da lei”.
– Raul Seixas

Se você morre de curiosidade de visitar a área mas tem um pouco de receio, o PIC (Prostitution Information Center) organiza tours guiados por ex-prostitutas aos sábados, e no verão também às 4as feiras, em holandês ou inglês. Procure o De Wallenwinkel (Enge Kerksteeg 3, 1012 GV Amsterdam, tel + 31 20 420 73 28, e-mail: pic@pic-amsterdam.com).

Foi bem no meio dessa balbúrdia toda que eu descobri o Excalibur Café. Com decoração à la Rei Artur e a Távola Redonda, mesa de sinuca no mezanino, barman com jeito de durão mas muito amigável, e heavy metal/ hard rock a noite inteira, encontrei um pub pra chamar de meu em Amsterdã.

4 IMG_7456No dia seguinte meu plano era amenizar um pouco a minha falta de cultura visitando o recém-reinaugurado Museu Van Gogh, mas a fila estava tão grande que desisti da idéia – não sem antes descolar um delicioso cachorro-quente na barraquinha que estrategicamente está localizada na entrada. Escolhi a Praça dos Museus (Museumplein) pra devorar meu café-da-manhã enquanto ao mesmo tempo fazia fotossíntese, escrevia bobagens e observava turistas engraçados tentando escalar o letreiro “I Amsterdam” em frente ao Rijksmuseum. Isso é o que eu chamo de ser multitarefa! haha

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6 2013-05-04 16.46.25Nessa mesma praça existe uma loja do Museu Van Gogh, onde comprei ingresso pra visitar o museu no dia seguinte sem nenhuma fila. Estressar pra quê? Já que é assim, bora visitar o Heineken Experience, o museu da cerveja holandesa mais famosa do mundo, dentro da antiga fábrica fundada em 1864.

João, um amigo da academia que produz cerveja artesanal, um dia me explicou que whisky nada mais é do que a cerveja destilada. Assim, quando eu resolvo tomar cerveja em casa ao invés de whisky, é sempre Heineken – que é puro malte sem por isso custar uma fortuna. Nada contra quem gosta do suco de milho transgênico que são as cervejas comerciais brasileiras…

7 2013-05-04 17.32.58Se eu já gostava de Heineken, depois de visitar o museu, então, me apaixonei pra valer! Totalmente interativo, o tour começa pela história dos fundadores, passa em detalhes por todo o processo produtivo e termina – obviamente – em degustação. E vou repassar aqui com exclusividade o pulo do gato que recebi do meu amigo brazuca: ao final do tour, quando chegar o momento da degustação, o guia vai fazer algumas perguntas – cada uma delas vale um copo a mais de cerveja: “Por que a espuma é importante para a degustação?“, “Qual ingrediente confere o tom dourado à cerveja?“, “Qual o ingrediente que dá o sabor amargo?“, “Como se brinda ‘Saúde’ em Holandês?” (Igual na Alemanha: Proost!), e “Qual o meu nome?” (ele começa se apresentando). Sem ter que atropelar ninguém pra me dar bem, faturei três copos extras com essa dica super quente, pois fui a única do grupo a saber as respostas!! E na saída ainda ganhei mais uma cerveja na “baladinha” Heineken. Mas não acaba aí: com o ingresso do Heineken Experience você ganha um agradabilíssimo passeio de barco pelos canais de Amsterdã, da 8 2013-05-05 18.03.38fábrica até a loja, e também um abridor de garrafas super-exclusivo! Imperdível! E eu preciso dizer que eles vendem cerveja no barco…?

Com 7 copos de cerveja na cabeça antes das 6 da tarde, achei que seria conveniente forrar o estômago com alguma tranqueira antes de partir de vez pro crime. Na Holanda existe uma rede de fast food chamada Febo, onde hambúrgueres e croquetes ficam expostos em uma parede de forninhos envidraçados: como em uma máquina de refrigerantes, você insere uma moeda, abre a portinha e retira o lanche. Nada mau!

9 feboNessa noite voltei pro Excalibur, desta vez sozinha. Lá pelas tantas, eu estava mega apertada pra usar o banheiro mas tinha alguma infeliz trancado 10 2013-05-04 21.56.24lá dentro eternidade… Eis que sai uma…  hum… um rapagão fantasiado de… ahn… sei lá o que era aquilo… Estava rolando uma festa de despedida de solteiro, coisa muito comum de se ver em Amsterdã aos finais de semana.
Depois conheci um sujeito da África do Sul chamado Henry, nem sei como fomos parar nesse assunto mas acabou que ficamos um século discutindo racismo. Ele de um lado descendo a lenha nos negros, dizendo o quanto eram perigosos e que deveriam ser exterminados, e eu de outro tentando explicar como as coisas são diferentes no Brasil e que se o comportamento deles na África do Sul é assim tão violento, isso com certeza é produto da sociedade em que vivem. É claro que uma conversa dessas não leva a lugar nenhum, mas foi um custo pra eu conseguir me desvencilhar desse maluco. Finalmente às 3 da manhã peguei o ônibus de volta pra casa e… Alguém me acordou quando chegamos no ponto final!! Acredite, eu contei, para você ter uma idéia de como fui parar onde judas perdeu as botas, foram VINTE-E-SETE PONTOS até voltar pro lugar certo! Por sorte dessa vez o motorista me ajudou a não perder a parada…

O próximo dia foi a vez de me redimir e visitar o Van Gogh, e não sei se por causa de um festival que estava rolando na cidade ou de um jogo de futebol do Ajax, o fato é que não estava tão lotado. Foi uma tarde perfeita pois esse museu é excepcional, melhor ainda quando não há um monte de pessoas te cutucando. O museu conta a história do VG desde quando ele decidiu se tornar um pintor até o momento de sua morte, e o acervo é bem completo, com obras de todas as fases do artista. Traga um dinheirinho extra porque há uma lojinha dentro do museu com souvenirs bem estilosos!

Sanitários públicos em Amsterdã
Sanitários públicos em Amsterdã

Depois do passeio cultural encontrei meu amigo do Brasil outra vez e juntos fomos procurar um outro bar de rock, o The Waterhole. Por conta do tal jogo de futebol, o chão da praça mais próxima ao pub estava uma imundície, forrado de copos descartáveis, latas e garrafas, e alguns jovens remanescentes cambaleando em um estado lastimável de bebedeira. Presenciamos uma galera batendo boca com policiais e uma garota sendo presa.

O The Waterhole é um pub excelente, com música ao vivo, entrada grátis e cerveja barata. Conhecemos um pessoal da Dinamarca, Jakob, Lars, Ana e Alessandro, que nos ensinaram como brindar em 12 IMG_7498dinamarquês ‘Skål’ (pronuncia-se skol) e que os dinamarqueses são o povo mais feliz do mundo! Agora você já sabe de onde vem o nome da cerveja brasileira que desce redondo…

Pra não perder o costume, terminei a noite cochilando no ônibus e acordando no ponto final outra vez…

É isso aí. Hora de testar a sorte na Alemanha!

Quer ver mais fotos? Clique aqui.

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3 comentários em “Papagaio come milho, periquito leva a fama”

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